Sobre a Tranquilidade da Alma – Uma Introdução
Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), escritor de Sobre a Tranquilidade da Alma, foi um dos mais notórios pensadores da Roma Antiga, ao ponto de ser ovacionado pelo próprio Quintiliano, que exalta a sua condição de universalidade no trato das matérias de erudição.
De discursos a poemas, Sêneca apregoou em muitos tratados morais os conhecimentos e a forma de pensar estóica sobre os dilemas morais humanos.
No diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma – De Tranquilitate Animi –, Sêneca se coloca como uma espécie de médico que aponta o tratamento devido para a alma aflita de seu interlocutor e amigo, Sereno, que sofria com as “flutuações” de seus vícios, e que segundo o Estóico, tal tratamento seria a condição divina de tranquilidade da alma – tranquilitas**.**
Embora, trata-se de um diálogo em forma epistolar, a obra é iniciada com as queixas de Sereno, e na continuidade, Sêneca, ao tomar a palavra, permanece até o final com um monólogo que vai descortinar os dilemas de Sereno, apontando as soluções segundo suas concepções.
Este texto pretende ser como um guia para que a sua leitura da obra seja fluída, aproveitando de forma melhor cada um dos tópicos mais importantes, e tendo o conhecimento prévio sobre a estrutura geral da obra.
A morte de Sêneca, 1871 de Manuel Domínguez Sánchez
A Problemática do Livro
Sereno, o interlocutor, descreve seus dilemas. Em linhas gerais, seu desejo é caminhar em virtude, porém ao se deparar com algumas circunstâncias – que veremos mais à frente em detalhes – ele se vê hesitante, de forma que nem consegue se manter firme e estável no caminho da virtude, contudo tão pouco a abandona e se entrega de todo às paixões. Essas “flutuações” o incomodavam amiúde. Ele diz:
“nem estou de todo liberado dos males que temia e detestava (vícios), nem, por outro lado, estou entregue a eles”.
É necessário ressaltar que por “vícios”, o texto clássico se refere à antítese da virtude, e não a quaisquer naturezas de dependências, embora isto possa ou não estar contido na definição.
Sêneca, à essas “flutuações”, oferece como solução a condição de estabilidade – ou tranquilidade, bem como os possíveis caminhos para tal condição. Essa “tranquilidade” que o Estóico oferece se assemelha à noção de virtude aristotélica como a mediatriz entre dois vícios, que seriam como excessos da virtude, de tal forma que a alma, diante de alguma circunstância, não poderia nem exaltar-se, nem deprimir-se. Tal “linearidade” que despreza ondulações, seria como a tranquilidade que Sêneca deseja conceber como cura.
Estrutura do Livro
Abaixo, segue uma estrutura comentada da obra baseada na divisão de José Eduardo Lohner, embora os comentários e parte da estrutura que propomos divirjam em alguns pontos em relação ao tradutor mencionado.
Indicamos sua tradução do texto integral, juntamente com o tratado Sobre a Ira, publicado pela Penguin Companhia, 2014.
Embora esboçados os temas principais, a beleza da linguagem com Sêneca aborda cada um dos tópicos jamais poderia ser traduzida neste resumo, tão pouco a profundidade dos temas, ou ainda, tantos outros tópicos que aqui serão omitidos. Que este guia seja também um convite para a leitura do tratado.
Livro Sobre a Tranquilidade da Alma - Sêneca | Direitos da foto: Academuslab.
Capítulo I – As dores de Sereno
Conforme já tratado, o livro inicia-se com as indagações e queixas de Sereno. Os vícios aos quais Sereno se refere como as oscilações em sua busca por virtude são basicamente de três naturezas:
1. Hesitação diante de bens materiais: Embora ele argumente que despreze a suntuosidade procedente do luxo, em dados momentos, ele se vê tentado a voltar-se não mais à frugalidade. O luxo o atacava sempre com uma “mordida secreta”.
2. O caminho do ócio ou do negócio: Sereno descreve sua alternância entre o exercício da vida pública no âmbito jurídico e o recolher-se para os estudos solitários e o cultivo da cultura – conceito antigo de ócio. O grande dilema reside quando a vida pública se apresenta em meio a dificuldades, com trabalhos árduos, isso conduzia-o ao recolhimento como uma espécie de fuga. Após uma sessão de leitura edificante, ele sentia-se impelido a voltar-se ao exercício da vida pública.
3. Dilema estético sobre a escrita: Sereno privilegiava o conteúdo como o componente mais importante na arte de escrever, levando em conta um estilo de escrita simples que fosse condizente ao seu saber. Contudo, a altivez de espírito dirigia-o a abandonar o estilo simples e adotar um estilo sublime que reconhecidamente não era sua “própria voz”.
Sereno ainda relata o seu receio de sucumbir a estas condições, tal como alguém em uma corda-bamba prestes a cair. O capítulo termina com o interlocutor clamando por um remédio que possa dar cabo destas flutuações.
Capítulo II – O Remédio: A Tranquilidade da Alma
Com efeito, Sêneca assume seu papel de “médico” e começa a considerar as questões a ele impostas. O Estóico, pelo fato de seu interlocutor se tratar de alguém que busca a virtude, minimiza a angústia de Sereno com sua condição, não o tratando como alguém doente, mas como alguém que ainda não se habituou a ter saúde.
Entretanto, Sêneca chama atenção a real importância daquilo que seu interlocutor deseja. Essa condição de não perturbação da alma, da qual Demócrito denomina como euthymía, Sêneca a chama de tranquilitas, uma condição de não perturbar-se que é hiperbólicamente quase divina, porém seria o remédio para dar cabo de tais flutuações.
Sêneca ainda descreve as condições de indivíduos que estão de fato entregues aos vícios que Sereno menciona, e como para estes, nem no negócio, e tão pouco no ócio há lugar de tranquilidade. Mudam de lugar, achando que assim, poderão mudar sua condição, quando na realidade é o interior que carece de mudança. Por não haver contentamento nem em um estado, nem em outro, para Sêneca, isso geraria o tédio e a instabilidade para tais indivíduos.
Capítulo III ao VIII – A Virtude no Ócio e no Negócio
Nestas sessões, Sêneca começa a pontuar os medicamentos que julga necessários para a estabilidade na virtude e combate de tal tédio anteriormente mencionado. Ele defende que o exercício da virtude não se aplica apenas ao ócio, mas também no âmbito público ou nos negócios – negotia – ou ainda em quaisquer circunstâncias. É útil ao Estado não só apenas quem julga os réus, mas quem adverte os jovens sobre o bom proceder.
Sobretudo nos capítulo de 3 a 5, Sêneca foca na análise da vida pública e política, conciliando o exercício da virtude com tais atividades.
“Vale notar que, de um lado, numa situação política opressiva, um homem sábio encontra ocasião para se manifestar, e, de outro, numa situação próspera e feliz, reinam o dinheiro, a inveja e mil outros vícios da inércia”.
No capítulo 6, Sêneca evidencia a necessidade de examinar a si mesmo, pois, via de regra, nos parece que podemos fazer mais do que realmente podemos. Seguida da reflexão sobre si próprio, deve-se considerar as ações e planejamentos que desejamos alcançar; nossa real capacidade deve acompanhar nossos projetos, por isso o exame de si seria tão importante.
O capítulo 7 é tomado por uma reflexão que o Estóico faz sobre o papel da amizade, e os critérios e cuidados para escolher um amigo.
Capítulo VIII ao IX – As Dores das Riquezas e o Comedimento
Esta seção discorre sobre os bens pessoais e as riquezas. Para ele, as dores oriundas das riquezas excedem as dores de outros temores como a própria morte. A dor de não ter (riquezas) é menor do que o medo de perdê-las, argumenta o filósofo. Os patrimônios seriam para ele o maior motivo das desavenças humanas.
Sêneca ainda fixa bom termo no usufruto das riquezas:
“O melhor limite para o dinheiro é aquele em que nem nos deixa cair na pobreza, nem da pobreza nos distancia”.
Ele ressalta como a frugalidade e o comedimento devem ser guiados pelo o que é necessário, não entregando-se ao luxo ou aos excessos. Coma o necessário, beba apenas o necessário. Toda pompa e suntuosidade são apenas combustíveis para a vaidade.
Para Sêneca a riqueza deve ser buscada em nós e não em fortunas.
Mesmo em despesas com boas finalidade como a literatura, o limite ponderado deve ser observado.
Capítulo X ao XI – As Correntes dos Bens e a Morte
Nesta seção, Sêneca aplica diversas premissas do estoicismo ainda no âmbito dos bens materiais. De certo modo, todos estamos atados a certas naturezas de vicissitudes como riquezas, honra e afins; mesmo aqueles que possuem uma vida difícil, o hábito torna o “peso” de tal vida mais leve ao longo do tempo, de modo que é possível ver lazer e diversão em qualquer estilo de vida.
Para Sêneca, é necessário a consciência desta “atadura” que nos prende a tais vicissitudes, de forma que enxerguemos que, na realidade, todos somos escravos em alguma medida. Desta consciência, podemos afrouxar as “ataduras” quando muito apertadas, e apertá-las quando demasiadamente frouxas estiverem; nem se apagar exageradamente a tais questões, e nem tão pouco desprezá-las quando contiverem louvor, aplicando o exercício da razão.
Na última metade desta seção, Sêneca se dedica ao tema da morte e à ansiedade decorrente desta sentença. Para o Estóico, é impossível viver bem sem a consciência de nossa mortalidade. Tudo antever, como se quaisquer hipóteses fossem possíveis de acontecer em nossa vida, para o filósofo, é a força motora para o bem viver. Aqueles que vivem somente esperando da vida alegrias mil, estarão em cada dilema, frustrados com sua própria condição.
*“*Viverá mal todo aquele que não souber morrer bem”.
Capítulo XII ao XIV – Ações Sem Propósitos
Jamais empreender ações sem propósitos, sobretudo diante da busca por riquezas, ou ainda, cobiçar além do que nos é dado, é o que Sêneca continua a argumentar como remédio para titubear diante do luxo.
Ele ainda alerta sobre o perigo na execução de tarefas múltiplas, porém irrefletidas e desnecessárias, e da agitação oriundas dessas, matéria em que a esfera pública é especialmente propensa.
O vício que Sêneca pontua aqui é o de buscar informações e ocupações aos montes, além de verificar numerosos fatos irrelevantes, quando nada disto é necessário. Essas definições parecem se assemelhar ao conceito moderno de entretenimento.
Deve-se propor fazer aquilo que é necessário, ainda que, estes sim, sejam inumeráveis, e considerar as eventualidades que podem nos impedir de executar tal e tal tarefa; exatamente o exercício mental de tudo antever postulado nos capítulos anteriores. Tal fato se aplica em não nos apegarmos demais a projetos futuros, de sorte que, assaltados por intempéries, tenhamos a resiliência da adaptação que despreza as frustrações.
Ele ainda ratifica o dever de interpretar os fatos positivamente ao citar Zenão, que após perder todos os seus bens, se viu apenas mais livre para filosofar.
Capítulo XV a XVII – Relacionamentos e a Vida de Aparências
Nesta seção derradeira, Sêneca trata dos relacionamentos, e como é imprescindível o otimismo e a benevolência em face das atitudes alheias que nos cercam, desprezando o importunamento inerente a tais atitudes.
“É mais humano rir-se da vida do que deplorá-la”.
O filósofo ainda comenta a atitude requerida em face das injustiças, como a morte de bons homens ou inocentes; fato não tão raro em sua época. Como exemplos notórios desta ordem, entre outros, Sêneca cita Sócrates, Cícero e Catão.
Ademais, Sêneca ainda menciona quão dolorosa é a vida de aparências movidas por vaidade, e quão grande deleite há na simplicidade.
Por último, o Estóico menciona a sabedoria necessária para alternar entre atividades diárias e o recolhimento. Reflete também sobre o papel do descanso e do lazer para o cultivo da tranquilitas, citando outros exemplos de homens que foram notórios em seus empreendimentos, todavia, cada qual tinha em conta seu respectivo descanso e lazer.
Informações Importantes para ler Sobre a Tranquilidade da Alma
Conforme observado, o diálogo está centrado sobre duas grandes estruturas: O problema de Sereno e sua instabilidade e o tratamento que o Estóico oferece.
Sêneca oferece fileiras de conselhos baseados no pensamento estóico, em grande medida postuladas por Zenão de Cítio, qual ele menciona lá pelas tantas do capítulo XIV.
O comedimento em relação aos prazeres e as aflições é um dos motes principais e condição básica para alcançar o ideal de tranquilidade que os estóicos pregavam – a ataraxia.
Sêneca, comenta os três dilemas de Sereno na obra basicamente desta forma:
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Primeiramente, tenta descrever quais as condições destas flutuações que Sereno padece, definindo-as no capítulo II;
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Após este capítulo, Sêneca aborda, majoritariamente, a primeira questão e a segunda – dilemas sobre o ócio e as riquezas – nos capítulos subsequentes. Ao dilema sobre o “Ócio ou Negócio”, ele dedica os capítulos III e IV.
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Sobre o dilema acerca das riquezas, praticamente podemos ver o tema em todos os capítulos vindouros, embora mais especificamente seja tratado nos capítulos de VIII a XI.
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De XII a XVII, ele retoma o assunto da esfera pública e o ócio, além do epílogo.
O terceiro dilema de Sereno sobre a estética da escrita é respondido pelo espírito geral da obra e argumentação do Estóico.
Não raro, Sêneca adverte sobre temas que parecem exceder as indagações de Sereno, contudo podem ser entendidos como causas do efeito da intranquilidade de seu interlocutor.
A tranquilidade e o balizamento da instabilidade, são os temas recorrentes em todos os capítulos, aos quais Sêneca trabalha de forma transversal; alterna entre os dilemas ou trata-os de modo conjunto, quando de algum modo se tocam.
No limite, o cerne da questão que Sêneca trabalha é o de não permitir que seu interlocutor seja seduzido por quaisquer natureza de dilemas da vida, sejam elas riquezas ou vida pública. Para tal, o comedimento é o remédio necessário para o não exaltar-se, nem o depreciar-se, de tal forma que pelo o hábito – considerando esta definição também como a própria virtude, dentro do Mundo Clássico – o indivíduo adquira a estabilidade que busca diante de cada um dos dilemas que se apresentam, ao passo que a tal tranquilitas se torna o próprio estilo de vida do sujeito.



